Por décadas, bater na parede foi explicado só pela queda de glicogênio: o combustível acaba, o corpo trava. Só que a estratégia de carboidrato evoluiu muito nos últimos anos, e o problema continua acontecendo do mesmo jeito. Uma revisão publicada há poucos dias no Journal of Functional Morphology and Kinesiology propõe outro modelo.
Bater na parede é colapso, não só falta de combustível
Pesquisadores gregos e jordanianos revisaram a literatura e propuseram um modelo integrado: o colapso no fim da maratona nasce do cruzamento entre esforço percebido, controle de ritmo e a capacidade do corpo de manter função sob estresse prolongado, o que os autores chamam de durabilidade.
Cinco fatores que se somam, não um só
O artigo mapeia cinco estressores que interagem entre si e corroem a durabilidade aos poucos: estresse metabólico, sobrecarga termorregulatória, disfunção gastrointestinal, fadiga neuromuscular e biomecânica, e erros de ritmo. A queda mais acentuada acontece entre os 30 e os 35km, quando glicogênio disponível, estresse térmico, desconforto gastrointestinal, fadiga neuromuscular e esforço percebido se cruzam ao mesmo tempo.
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Treino: a durabilidade também se treina
Corredor com rodagem longa regular e maior volume de treino preserva melhor a economia de corrida e resiste mais à queda fisiológica no fim da prova. Treino de força entra na equação: melhora produção de força e resistência à fadiga sem prejudicar a parte aeróbica.
Nutrição: quanto carboidrato, e quando testar mais
A recomendação segue em 60 a 90g de carboidrato por hora durante o esforço, usando fontes múltiplas de açúcar. Chegar perto de 120g por hora só funciona em atletas bem treinados, com o intestino já adaptado. Cafeína reduz a percepção de esforço, mas dose e horário precisam ser testados em treino, nunca estreados no dia da prova.
Controle térmico: hidratar demais também é risco
Aclimatação ao calor antes de provas quentes expande o volume de plasma e reduz o estresse cardiovascular. A hidratação precisa ser individual, a partir da taxa de suor testada em treino. Beber além da conta também é perigoso: aumenta o risco de hiponatremia, o problema oposto à desidratação.
Ritmo: a largada decide o final
Largada conservadora ou ritmo uniforme reduz o gasto precoce de recursos e desacelera o acúmulo de estresse ao longo da prova. Largada agressiva no início acelera esse acúmulo e aumenta direto a chance de bater na parede.
Ponto prático: treino, nutrição, controle térmico e ritmo sustentam juntos a mesma coisa, a durabilidade até o fim da prova. A prova não quebra no km 32 por um motivo só, ela quebra porque algum desses pilares cedeu antes dos outros.
Referência: Grivas GV, Alkasasbeh WJ, Amawi AT. Hitting the Wall in Marathon Running: An Integrative Psychophysiological and Durability-Based Review. J Funct Morphol Kinesiol. 2026;11(3):291.