É uma pergunta que eu já ouvi de muito corredor de longa data: será que anos e anos de maratona vão cobrar a conta do coração lá na frente? Faz sentido perguntar isso, porque durante a prova o coração passa por um grande estresse. Um estudo publicado agora na JAMA Cardiology foi atrás dessa resposta, acompanhando corredores por uma década inteira.

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores acompanharam 152 corredores recreacionais, idade média de 43 anos, medindo a função cardíaca em vários momentos: antes da prova, imediatamente depois, alguns dias depois, e de novo no acompanhamento de 10 anos. Usaram ecocardiografia tridimensional e biomarcadores de estresse cardíaco, como a troponina T.

O que acontece durante a prova

O lado direito do coração, que trabalha bombeando sangue pros pulmões o tempo inteiro durante o esforço, sofreu sim um estresse agudo real: a fração de ejeção caiu de 52,4% antes da prova pra 47,6% logo depois. Isso já era esperado, o corpo inteiro fica exausto numa maratona, o coração incluso.

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O que acontece depois de uma década repetindo isso

A pergunta que interessa de verdade é o que acontece depois de anos repetindo esse ciclo de estresse. E aqui está o achado principal: quando os pesquisadores voltaram a medir 10 anos depois, essa função tinha voltado pro nível de antes da prova, em 51,9%. Não houve associação entre o aumento de troponina T durante a corrida e alguma queda na função do ventrículo direito ou esquerdo no acompanhamento de 10 anos.

Ponto prático: o coração sofre estresse agudo na hora, se recupera, e repetir esse ciclo ano após ano não demonstrou cobrar uma conta de deterioração acumulada nesse grupo de corredores recreacionais saudáveis.

Isso não é passe livre pra ignorar sinal de alerta. Dor no peito, arritmia, falta de ar desproporcional, continuam exigindo avaliação médica, principalmente em corredor que treina volume alto ou tem fator de risco cardiovascular. Mas o medo genérico de que maratona todo ano vai destruir o coração no longo prazo, pelo menos nesse estudo de 10 anos, não se confirma.

Referência: Schindler MJ, Schoenfeld J, Trommler A, Haller B, Nieman DC, Halle M, Scherr J. Long-Term Changes in Ventricular Function in Recreational Marathon Runners. JAMA Cardiol. 2026.