Parece contraintuitivo. Treinar forte já é um estresse para o corpo, então a lógica diria que somar isso a um dia pesado deixaria tudo pior. Um estudo publicado em 2021 na Psychoneuroendocrinology testou exatamente essa questão e encontrou o contrário.
Como o estudo foi feito
Oitenta e três homens saudáveis, com média de 21 anos, foram sorteados para fazer 30 minutos de esteira em uma de três intensidades, definidas em percentual da frequência cardíaca de reserva: 30%, 50% ou 70%.
Traduzindo para o que a gente sente correndo:
30% é um trote bem leve.
50% é aquele ritmo em que dá pra conversar sem dificuldade.
70% é forte, o ponto em que a conversa não sai mais.
Quarenta e cinco minutos depois de terminar o treino, todos passaram pelo mesmo teste de estresse psicossocial em laboratório, que envolve falar em público e fazer cálculo mental na frente de avaliadores. O cortisol foi coletado na saliva antes, durante e depois.
O que mudou no grupo que correu forte
Comparado aos grupos de intensidade leve e moderada, o grupo dos 70% apresentou:
Menor aumento de cortisol durante o teste de estresse.
Pico mais baixo e mais cedo, aos 40 minutos, contra 45 minutos nos outros dois grupos.
Retorno ao normal mais rápido, cerca de 10 minutos antes dos demais.
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Por que isso acontece
O treino forte já libera cortisol por conta própria. O corpo registra que a resposta ao estresse foi acionada e segura a próxima, num mecanismo de retroalimentação negativa do eixo hormonal.
O dado que sustenta essa leitura é elegante: a quantidade de cortisol liberada durante o exercício previu, de forma inversa, a resposta ao estressor psicológico que veio depois. Quanto mais cortisol no treino, menor a reação no teste.
Na prática: se tu sabe que vai encarar um compromisso tenso, um treino forte algumas horas antes pode deixar teu corpo com a resposta hormonal mais controlada quando a hora chegar.
O que o estudo não diz
Foram 83 homens jovens, média de 21 anos, numa única sessão de esteira em laboratório. Não eram corredores em treino ou em prova, então levar isso para o contexto esportivo é raciocínio, não medição.
O intervalo testado foi de 45 minutos entre o exercício e o estressor, com efeito durando horas. É o que acontece dentro de um dia, não um plano de treino. Treinar forte todo dia para blindar contra estresse crônico é outra pergunta, e não foi essa a que o estudo respondeu.
O estudo também não mediu como as pessoas se sentiram. Cortisol mais controlado não significa necessariamente sentir menos ansiedade no momento.
Um detalhe sobre a qualidade da evidência
Vale destacar uma diferença em relação a boa parte dos estudos sobre estresse e estilo de vida. Aqui os participantes foram sorteados para as intensidades, e não comparados a partir de hábitos que já tinham.
Isso é bem mais forte. Quando se comparam grupos que já eram diferentes, sobra sempre a dúvida sobre o que mais os separava. Com sorteio, a diferença observada pode ser atribuída à intervenção com muito mais segurança.
Referência: Caplin A, Chen FS, Beauchamp MR, Puterman E. The effects of exercise intensity on the cortisol response to a subsequent acute psychosocial stressor. Psychoneuroendocrinology. 2021;131:105336. PMID 34175558.