Boa parte do que se sabe sobre alterações hormonais e ósseas em atletas vem de estudos com baixa disponibilidade de energia, ou seja, situações em que a pessoa come menos do que gasta. A pergunta que ficava em aberto era outra: a restrição de carboidrato, sozinha, com energia adequada, produz esses mesmos efeitos?
Um estudo publicado em setembro de 2026 na FASEB Journal isolou essa variável.
Como o estudo foi feito
Oito homens treinados passaram por duas fases de quatro dias cada, em ordem sorteada. Numa fase, dieta com pouco carboidrato (12% do total energético, com 69% de gordura). Na outra, carboidrato normal (62% do total). A proteína foi mantida igual nas duas, em 19%.
Nas duas fases eles treinaram todos os dias em cicloergômetro e, principalmente, receberam a mesma quantidade total de energia, calculada para manter a disponibilidade energética adequada. Nenhum participante ficou em déficit calórico.
A dieta com pouco carboidrato funcionou como esperado do ponto de vista metabólico: aumento de ácidos graxos livres, glicerol e corpos cetônicos em jejum, mais oxidação de gordura em repouso e durante o exercício, e queda da glicose no exercício.
O achado principal está no osso
O marcador de reabsorção óssea subiu já no primeiro dia da fase com pouco carboidrato e permaneceu mais alto ao longo dela. O marcador de formação óssea não se alterou.
Traduzindo: o osso passou a ser degradado em ritmo maior que o habitual, sem aumento correspondente na reconstrução. Os próprios autores apontam que a reabsorção parece ser mais sensível à restrição de carboidrato do que a formação, e que uma redução de densidade mineral óssea é possível mesmo com o atleta em equilíbrio energético.
Por que isso importa na corrida: cada passada impõe carga ao osso, que depende de remodelação contínua para sustentar o volume de treino. Se a degradação acelera e a formação não acompanha, as chances de lesão óssea aumentam.
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O que a balança mostrou, e o que ela escondeu
Em quatro dias, a massa corporal caiu cerca de 1,2 kg na fase com pouco carboidrato. A gordura corporal permaneceu inalterada. A queda veio de água corporal total e massa livre de gordura.
Esse é o mecanismo por trás da perda rápida de peso que costuma ser atribuída a dietas com pouco carboidrato nos primeiros dias. Cada grama de glicogênio estocado carrega água junto; quando o glicogênio cai, a água sai com ele. Não é perda de gordura.
O que aconteceu no músculo
O glicogênio muscular caiu 40% na fase com pouco carboidrato e permaneceu estável na fase com carboidrato normal.
A análise proteômica identificou 671 proteínas, das quais 57 apareceram com abundância diferente entre as fases. As que aumentaram estavam ligadas ao metabolismo de ácidos graxos. As que diminuíram estavam ligadas à síntese proteica e à estrutura da fibra e da matriz extracelular.
E aqui vem o ponto que contraria a justificativa mais comum para o treino com pouco carboidrato: não houve remodelamento mitocondrial claro. Os autores comparam com trabalho anterior do mesmo grupo, no qual a baixa disponibilidade de energia produziu aumento coordenado de proteínas mitocondriais, e sugerem que esse ganho depende mais do déficit energético do que da restrição de carboidrato em si.
O que não mudou
Vale registrar o outro lado do título do artigo. Insulina, testosterona, T3, leptina e hepcidina não se alteraram. A restrição isolada de carboidrato, com energia adequada, não reproduziu a perturbação endocrinológica ampla que se vê na baixa disponibilidade de energia.
Ou seja, o problema não é generalizado. Ele é seletivo, e recai justamente sobre osso e sinalização anábolica muscular.
Os limites do estudo
Foram oito participantes, o que exige cautela sobretudo nos achados proteômicos. A intervenção durou quatro dias, o que capta a resposta aguda e pode subestimar adaptações mais lentas.
Os participantes eram homens treinados em condições controladas de laboratório, pedalando e não correndo. Os próprios autores registram que os resultados podem não se aplicar diretamente a mulheres, atletas de elite ou treinamento de campo prolongado. E se essas alterações moleculares se traduzem em consequência funcional ao longo do tempo, ainda não se sabe.
Ponto prático: o carboidrato não sustenta apenas o desempenho na prova. Ele participa da recuperação óssea e muscular entre os treinos. Reduzir esse macronutriente sem critério custa em lugares que a balança não mostra.
Referência: Mosquera-Lopez E, Taylor HL, Nishimura Y, Langan-Evans C, Shepherd SO, Strauss JA, Morton JP, Burniston JG, Areta JL. Low Carbohydrate Availability in Energy Balance Alters Bone Turnover and Muscle Proteomic Response With Limited Endocrine Disruption. FASEB J. 2026;40(17). doi 10.1096/fj.202602531R