A Marathon des Sables é uma prova de 250km em etapas pelo deserto, no formato autossuficiente: cada atleta carrega a própria comida do início ao fim. Um estudo qualitativo publicado em 2026 acompanhou 5 desses atletas em 3 entrevistas semiestruturadas cada, cobrindo preparação, prova e recuperação. O que apareceu vai muito além de bater meta de carboidrato.
Antes da prova, comida limpa, mas com espaço pra flexibilidade
Os corredores entrevistados mantinham uma dieta consistente e com poucos alimentos processados na fase de preparação. Mas o próprio estudo mostrou que regras rígidas demais, no passado, já tinham criado estresse, restrição e comportamentos alimentares problemáticos em alguns deles.
É o que eu vejo direto no consultório: corredor que trata a alimentação pré-prova como lista de proibições sofre mais do que quem constrói um padrão consistente com espaço pra ajuste.
Durante a prova, sódio e hidratação viraram prioridade
No formato autossuficiente, os corredores priorizaram o que era leve e denso em energia: barras, géis, castanhas, refeições desidratadas e caldo em cubo. Com o calor do deserto e o suor alto, hidratação e sódio ficaram entre as maiores prioridades. O caldo em cubo, que a maioria estranhou no início, acabou virando aliado: sódio, sabor e uma pausa no enjóo de comida doce.
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O intestino decidiu quem completou a prova no ritmo planejado
Sintomas gastrointestinais foram comuns, de desconforto leve a náusea, tontura e vômito. Em alguns corredores, isso afetou diretamente o desempenho, reduziu a confiança e forçou o ritmo mais lento ou até a desistência.
É o mesmo motivo pelo qual eu insisto tanto pra testar toda estratégia de nutrição em treino longo antes da prova. O intestino não perdoa a novidade no dia da largada, seja numa prova de deserto ou numa maratona de asfalto.
O maior desafio não estava no prato, estava na cabeça
Tédio, monotonia alimentar, pensamentos negativos, fadiga cognitiva e, em um dos casos, até experiências parecidas com alucinação. As estratégias que funcionaram foram distração, autodiálogo, jogos de palavras e dividir a prova em blocos menores. Todo corredor que já passou do km 30 numa maratona reconhece essa fadiga mental, e as mesmas estratégias de quebrar a prova em pedaços menores funcionam em qualquer distância.
Na recuperação, a rigidez desapareceu de propósito
Depois da prova, os corredores abandonaram o controle rígido e comeram livremente, incluindo pizza, salgadinho, biscoito e chocolate, alimentos que tinham restringido durante meses. A recuperação psicológica pesou tanto quanto a física.
Ponto prático: flexibilizar a alimentação por alguns dias depois de uma prova grande é válido e saudável, faz parte do processo de recuperação completa, não é falta de disciplina.
Nutrição de ultraendurance não é só bater meta de carboidrato, líquido e sódio. É administrar a interação entre tolerância intestinal, apetite, estresse térmico, psicológico e praticidade, com um plano individualizado, testado em treino, e flexível o suficiente pra se adaptar quando o apetite, o intestino ou o ambiente saem do script.
Referência: Ryan T, Daly E, Ryan L. Nutrition practices and race experiences of ultra-marathon athletes in the marathon des sables, a qualitative analysis. Front Sports Act Living. 2026.