A 24ª Maratona do Rio fechou o fim de semana mais movimentado do calendário de corrida de rua brasileiro. Foram quatro dias de prova, 70 mil inscritos, o primeiro selo Elite Label da World Athletics concedido à competição e um detalhe climático raro que serve de aula de nutrição. Aqui está o resumo dos resultados oficiais e a lição que a largada gelada deixou.
Os campeões dos 42K
A prova principal de domingo teve domínio etíope absoluto. No masculino, Tsegaye Getachew venceu com 2h10min22s, numa chegada decidida no detalhe: o compatriota Antenyaehu Dagnachew ficou a apenas 2 segundos (2h10min24s). O norte-americano Daniel Mesfun completou o pódio (2h10min45s).
No feminino, Gadise Mulu Demissie cruzou em 2h25min47s liderando um pódio inteiramente etíope: as cinco primeiras colocadas são da Etiópia. Foi um recado claro sobre a força do meio-fundo e fundo do país africano, que voltou a transformar uma prova de rua brasileira em vitrine internacional.
O Brasil entre os melhores
Numa prova com selo Elite Label, o Brasil marcou presença no top 11 da maratona. Melquisedeque "Melki" Messias Ribeiro, de Itapira (SP), foi o melhor brasileiro: 10º lugar geral com 2h16min48s. No feminino, Amanda Aparecida de Oliveira foi a brasileira mais bem colocada, em 11º geral com 2h38min58s.
Mas o grande momento verde-amarelo veio nos 21K de sábado. O baiano Fábio Jesus Correia, de Monte Santo, venceu a meia maratona no geral com 1h01min53s, batendo quenianos e ugandenses e cravando recorde pessoal. E não foi a única medalha dele no fim de semana: dois dias antes, ele já tinha vencido os 5K. Descoberto aos 14 anos correndo descalço, Fábio trabalhou como coletor de lixo enquanto treinava, uma história que dá ainda mais peso à conquista.
Na meia feminina, a vitória ficou com a queniana Margret Gati Chacha (1h11min11s), e Maria Lucineida da Silva Moreira foi a melhor brasileira com 1h15min45s. Giovani dos Santos, 4º geral nos 21K (1h02min14s), completou o bom fim de semana nacional.
O Lucas monta o protocolo nutricional ajustado ao teu peso, ritmo e ao clima da tua corrida.
O detalhe que o frio deixou
Os 42K largaram sob 12°C, a segunda manhã mais fria do ano no Rio de Janeiro. Para quem corre, frio assim costuma ser uma boa notícia: com menos calor para dissipar, o corpo gasta menos energia tentando se resfriar e a performance tende a melhorar. Não à toa, os tempos da elite foram rápidos.
Só que o frio esconde uma armadilha que a maioria dos corredores amadores não enxerga. E ela não está nas pernas, está na estratégia de hidratação e de combustível.
Por que o frio é uma armadilha para a hidratação
Em temperatura baixa, dois mecanismos fisiológicos agem ao mesmo tempo e na mesma direção. Primeiro, o frio reduz a sensação de sede: o estímulo que normalmente te lembra de beber fica abafado. Segundo, há a chamada diurese induzida pelo frio, em que o corpo tende a produzir mais urina. O resultado prático é que tu bebe menos e, em alguns casos, perde mais líquido.
A perda de água pelo suor e pela respiração continua acontecendo no frio. A diferença é que, sem sede para te avisar, a desidratação se instala de forma silenciosa.
E tem um segundo ponto, talvez o mais subestimado: a necessidade de carboidrato por hora não cai porque está frio. O músculo que trabalha em ritmo de prova continua queimando glicogênio na mesma proporção. Largar "mais leve" no abastecimento porque a manhã está fresca é justamente o tipo de erro que cobra o preço nos quilômetros finais, quando o tanque esvazia.
Como ajustar a nutrição em prova de clima frio
A correção é simples e cabe em três princípios práticos:
- Bebe por plano, não por sede. Define goles a cada 15 a 20 minutos, mesmo sem vontade. No frio, esperar a sede chegar significa beber tarde demais.
- Mantém o carboidrato por hora. As diretrizes de nutrição esportiva da ACSM, Academy of Nutrition and Dietetics e Dietitians of Canada (Thomas, Erdman e Burke, 2016) apontam faixas de 30 a 90 g de carboidrato por hora conforme a duração e o treino intestinal do atleta. O frio não muda essa conta.
- Te pesa antes e depois do treino longo. Cada 1 kg perdido equivale a cerca de 1 litro de líquido a repor. É o teste mais simples e barato para calibrar a tua hidratação para o dia da prova.
Se quiser transformar esses princípios em números pro teu caso, montei duas ferramentas gratuitas: a calculadora de hidratação e a calculadora de carboidrato por hora. Elas dão uma referência inicial com base no teu peso, na duração e na intensidade.
Conclusão prática: dia frio é ótimo para performance, mas não dispensa estratégia. No frio, hidratação e carboidrato se planejam pelo relógio, não pela sede. Quem entende isso protege os últimos quilômetros, que é onde a prova é decidida.
A Maratona do Rio 2026 entregou velocidade, histórias de superação e um campo de elite à altura do novo selo internacional. E, como quase toda prova, deixou também uma lição de nutrição para quem quer evoluir. Boa recuperação a todos que correram.
Resultados oficiais: Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e plataforma de cronometragem da Maratona do Rio, consultadas em 7 de junho de 2026.